O temporal furioso inundava tudo ao redor, mas a atenção de Lily foi capturada por uma presença perturbadora no imóvel do outro lado da rua.

O silêncio na sala tornou-se mais ensurdecedor do que o próprio barulho dos trovões lá fora. Lily agarrou o colarinho de Ethan com força, os dedos cravando no tecido enquanto o sacudia em puro desespero. “Quem é ela, Ethan?! Responda! Por que aquela garota tem o mesmo coelho de pelúcia que você me deu quando nos conhecemos?! O mesmo coelho com a orelha rasgada que você jurou ter achado na sua infância?!”

Os olhos de Ethan estavam desorbitados, fixos na figura imóvel do outro lado da rua. O suor frio misturava-se com o pavor estampado em seu rosto empalidecido, enquanto o tremor de suas mãos se tornava completamente incontrolável. A pressão do olhar daquela criança através da tempestade parecia esmagar seus pulmões. Sem conseguir sustentar o peso da própria mentira, ele caiu de joelhos no chão, a voz saindo em um ganido arranhado e patético.

“Eu não queria… eu era só um menino…”, ele balbuciou, as lágrimas de puro pavor escorrendo pelo rosto. A verdade, podre e enterrada há mais de vinte anos, finalmente veio à tona sob a força daquela tempestade.

Naquela mesma casa abandonada, durante uma enchente devastadora idêntica àquela, o pequeno Ethan, tomado por uma inveja doentia do amor e da atenção que os pais dedicavam à irmã mais nova, fizera o impensável. Ele trancara a irmãzinha de apenas seis anos no porão da casa enquanto as águas da enchente subiam rapidamente. Ele ouviu os gritos desesperados dela, os socos fracos na madeira grossa da porta, e não fez absolutamente nada. Deixou que a água fria e barrenta a cobrisse por completo. Depois, mentira para os pais, chorando falsamente e dizendo que a menina fora arrastada pela correnteza na rua.

Como um troféu macabro de seu crime impune, ele guardou o coelho de pelúcia da irmã. Anos mais tarde, entregara o brinquedo a Lily, camuflando seu passado podre sob a fachada de um homem carinhoso e traumatizado.

Lily deu vários passos para trás, sufocada por um nojo e um horror viscerais. O homem com quem ela dividia a vida e a cama não era uma vítima do luto, mas sim um monstro frio e cruel que guardara a lembrança da própria vítima. A náusea tomou conta de todo o seu ser.

De repente, a força da enchente rompeu as vedações da porta principal, invadindo a sala com uma fúria assustadora. A água barrenta e gelada subiu rapidamente, alcançando a cintura de Ethan em questão de segundos. Em pânico absoluto, Ethan tentou se levantar, gritando descontroladamente enquanto a correnteza o empurrava em direção à escada do porão da própria casa, cuja porta fora arrancada pela pressão da água.

“Lily, me ajuda! Me puxa! Por favor, não me deixa morrer aqui!”, ele implorava, estendendo as mãos em desespero enquanto lutava contra a força da água.

Mas Lily apenas o encarou de cima. Não havia mais amor, nem piedade, nem humanidade em seus olhos — apenas o reflexo do desprezo absoluto. Com passos firmes e calmos em meio ao caos, Lily caminhou até a pesada porta de ferro da área de serviço, que dava acesso à parte mais profunda e fechada da casa.

Com uma força alimentada pela raiva pura, Lily empurrou Ethan com os pés para dentro da correnteza que fluia para o nível inferior encravado no solo. Antes que ele pudesse emergir, ela puxou a pesada porta de ferro e a trancou por fora, girando a chave e travando o cadeado com um baque seco.

Do outro lado da porta trancada, os gritos estridentes de Ethan e os socos desesperados na madeira e no ferro começaram a ecoar. Eram os mesmos socos, o mesmo pavor e a mesma escuridão sufocante que sua irmãzinha enfrentara vinte anos atrás. A água continuava a subir impiedosamente, preenchendo cada centímetro de ar daquele buraco escuro.

Lily subiu com calma até o andar superior e olhou pela janela uma última vez. Do outro lado da rua, na janela da casa abandonada, a menininha abraçada ao coelhinho deu um leve e sereno aceno de despedida, antes de desaparecer suavemente na penumbra da tempestade.

Lá embaixo, os socos de Ethan na porta trancada foram ficando cada vez mais fracos, abafados pela água gelada que finalmente preencheu seus pulmões e calou sua voz para sempre. A justiça não veio dos tribunais, mas sim da própria tempestade: o monstro pagara pelo seu crime exatamente da mesma forma, morrendo sufocado no escuro, ouvindo o som da própria sentença.

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